
Texto, fotos e revisão técnica: Andreia Guerreiro,
Arranjo gráfico: Fernando Leite
A palavra ortóptica tem origem grega e provém da junção das palavras Ortho e optikos, direito e olhos, respectivamente.
A primeira abordagem prática ao estrabismo foi feita por Paulos Aeginata, no sec. VII, um físico grego, que utilizou uma mascara com dois orifícios numa tentativa de corrigir a posição dos olhos de forma que ficassem “direitos” (fig.1).

Fig. 1 Máscara de Paulos Aeginata
No sec. XIX começa o desenvolvimento da ortóptica como a conhecemos hoje.
* Historia Nacional da formação da profissão Ortóptica
Como inicialmente não haviam escolas, eram os hospitais centrais e outros departamentos do ministério da saúde que faziam pequenos cursos sem uniformidade e sem reconhecimento do diploma entre as instituições.
Em Junho de 1961 na portaria 18523 surgiram centros de preparação de técnicos e auxiliares dos serviços clínicos.
O 1º período de formação de ortóptica surgiu em 1962, foi publicado na separata do “Jornal Medico”, pelo Prof. Dr. Silva Pinto (Faculdade de ciências do Porto) um artigo a anunciar o curso de ortoptistas com programa semelhante aos cursos ingleses e integrados em centros de formação e anexos aos serviços de oftalmologia.
O primeiro curso de ortóptica realizou-se no Porto em 07 de Fevereiro de 1963, o curso tinha a duração teórica de 2 anos e o estágio de 5 meses, para concorrer ao curso era necessário ter como habilitações mínimas o 3º ciclo. De oito alunas que se candidataram nesse ano, sete formaram-se em Fevereiro de 1965.
* Perfil profissional do Ortoptista

* Missão
Identifica, quantifica e qualifica as anomalias da visão binocular, define e executa programas terapêuticos com vista à reeducação visual. Desenvolve capacidades residuais de pessoas sub-visuais. Executa exames complementares de diagnóstico de exploração funcional anatomofisiológica da estrutura ocular.
* Diagnóstico
Efectua exames ortópticos, analisando e avaliando o equilíbrio oculomotor, através da aplicação de um conjunto de testes, com o objectivo de avaliar o estado sensorial e motor da visão binocular. Elabora relatórios sobre o diagnóstico ortóptico e o plano terapêutico aconcelhavel.
Realiza exames complementares ao diagnóstico, de exploração funcional anatomofisiológica da estrutura ocular, utilizando equipamentos de diversas bases tecnológicas, com vista à avaliação da função visual, da condução nervosa do estimulo visual, das deficiências do campo visual, entre outros.
Realiza exames para a detecção de erros refractivos e adaptação de lentes de contacto com vista à compensação dos mesmos.
* Terapêutica
Planeia e executa os programas terapêuticos de recuperação, reeducação e reabilitação ortóptica de desequilíbrios motores do globo ocular com vista a optimizar a funcionalidade da visão binocular.
Desenvolve capacidades visuais residuais de indivíduos com sub-visão ou com perturbações neuro-fisiológicas, com vista a potencializar a funcionalidade visual, e colabora com o mesmo objectivo em programas de integração escolar, social e profissional.
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* Áreas de prevenção e promoção da saúde e investigação
Participa em programas de rastreio e prevenção de deficiências visuais e do enraizamento de determinadas afecções.
Desenvolve acções de sensibilização, esclarecimento e/ou aconcelhamento junto do doente/utente e familiares, no âmbito da educação e da promoção da saúde.
Elabora estudos de investigação no âmbito da sua área de intervenção.
* Locais de Exercício da Actividade
- Unidades hospitalares
- Centros de saúde
- Clínicas privadas
- Centros Ópticos
- Estabelecimentos de ensino
- Empresas de medicina do trabalho
- Centros desportivos
- Estabelecimentos de reeducação especializados
- Exercício liberal
EXAMES COMPLEMENTARES AO DIAGNÓSTICO
* 1. Campimetria
A campimetria é um meio de avaliar a sensibilidade retiniana de um indivíduo através do seu campo visual, que se define como sendo uma área de espaço dentro da qual todos os objectos são vistos simultaneamente por um olho em fixação estável.
Existem dois tipos de campimetria: a qualitativa (fig.2) que apenas nos mostra se o defeito existe ou não e se existe qual a sua forma, e a quantitativa(fig.3) que além de nos mostrar o defeito quantifica-o.


Fig. 2 Campimetro de Goldmann e respectiva representação gráfica


Fig. 3 Perímetro Estático Computorizado e respectiva representação gráfica
* 2.Topografia e Queratometria
A topografia da córnea é um exame necessário para avaliar a córnea, elabora um mapa da parte posterior e anterior da mesma e atribui coloração ás diferentes elevações que esta estrutura ocular possui, permitindo assim, observar alterações que possam existir.


Fig. 4 Realização da Topografia da córnea e Fig. 5 Representação gráfica do exame
A queratometria pode ser calculada manualmente ou de uma forma automática, uma das formas automáticas de a calcular é através da topografia. Alguns aparelhos topográficos, como é o caso do Orbscan (fig. 5), fazem também esta medição, outro é o queratómetro automático(fig.6). Manualmente utiliza-se o queratómetro de Javal (fig.7) de forma a medir as curvaturas da córnea.

Fig.6 queratómetro automático


Fig. 7 Queratómetro de Javal, visto pelo ortoptista, e visto pelo paciente
* 3. Biometria
A biometria é a medição do comprimento axial. Esta medição é combinada com a queratometria numa fórmula para determinar o poder da lente intra-ocular que substitui a lente natural na operação da catarata.
A exactidão é muito importante. Um erro de 4 mm pode resultarerro de 1 dioptria no poder da lenteintra-ocular.
A sonda é colocada perpendicularmente ao olho (A) e cada estrutura que o feixe atravesse forma um pico na representação gráfica (B)
* 4. Rastreio Oftalmológico
Consiste num conjunto de exames realizados antes de cada consulta. Inicia-se pela medição da graduação através do autorefractómetro(Fig.
Existem situações em que se efectua um rastreio à visão binocular através de um aparelho chamado visiotest (Fig.11).

Fig.8

Fig.9

Fig 10

Fig. 11
* 5. Retinografia / Angiografia
Este exame permite visualizar a circulação nos vasos retinianos e permite ainda monitorizar o tratamento de problemas oculares que tenham sido realizados.
Para este exame é necessário dilatar a pupila de forma a que o fundo do olho fique bem visível. Antes de injectar o contraste realiza-se a retinografia(Fig.14), uma fotografia do fundo ocular, que nos permite prever as zonas a estudar.
Após ser injectado o contraste, inicia-se uma sequência fotográfica de forma a conseguir captar todas as fazes da circulação. Em pacientes diabéticos é necessário fotografar nas várias posições do olhar para verificar se existe retinopatia diabética.

Fig.12 Realização do exame

Fig.13 Angiografia com patologia

Fig.14 Retinografia
* 6. OCT – Tomografia de coerência óptica
Este é outro exame que damos preferência á dilatação, isto porque, como é um exame em que se quer estudar a retina, quanto mais dilatada estiver a pupila melhor. O OCT permite-nos visualizar cortes transversais da retina em todos os seus ângulos, e analisar assim, cada uma das 10 camadas que esta estrutura ocular possuí.
O OCT permite ainda a medição da escavação do nervo óptico em pacientes com glaucoma.

Fig. 15 Realização do OCT

Fig. 16. Imagem gráfica do OCT
* 7. Microscopia especular
Permite-nos visualizar e fazer a contagem das células do endotélio da córnea. Através desta contagem de células o aparelho analisa o tamanho e a forma das mesmas de forma a perceber se existe alteração das células endoteliais.

Fig. 17 Aparelho Microscopia Especular

Fig. 18 Exame normal

Fig.19 Exame alterado
* 8. Adaptação de Lentes Contacto
O primeiro passo numa adaptação de lentes de contacto é a obtenção de informação do paciente acerca do próprio, modo de vida, o porque da utilização das lentes de contacto, entre outros aspectos. A observação do olho, do pestanejo e da lágrima são muito importantes na selecção da lente. Realiza-se um autorrefractometro e a partir deste confirma-se a graduação do paciente, faz-se a medição da queratometria e procede-se á selecção da lente. Esta tem de estar totalmente de acordo com todos os parâmetros estudados anteriormente.
Realiza-se uma primeira adaptação com a lente seleccionada, o paciente aguarda 30 a 60 minutos para perceber se se sente bem com a lente colocada. Realiza-se novamente o autorrefractometro, desta vez com a lente colocada, e confirma-se novamente as graduações para ver se o paciente esta a ver a 100% para o perto e para o longe. Observa-se na lâmpada de fenda o movimento e a centragem da lente. Caso não esteja bem adaptada volta-se a colocar outra lente em conformidade com a graduação corrigida, o paciente aguarda novamente, é posteriormente observado e assim até se atingir a lente correcta. Caso esteja adaptada, há que ensinar a por e a tirar a lente de contacto, fazer todas as recomendações de higiene que esta necessite e encomendar a lente de contacto definitiva.
* 9. Avaliação da Visão binocular
Existem variados exames e técnicas para estudar a visão binocular dependendo de cada caso, entre eles:
Estudo da acuidade visual
Estudo dos movimentos oculares
Teste de cover
Teste das luzes de worth
Testes de percepção simultânea
Testes de fusão
Testes de estereopsia
Régua de RAF
Asa de Maddox
Cruz de Maddox
Estudo ao sinoptofero
…
Entre muitos outros que existem, estes exames permitem estudar a visão binocular e através de exercícios de ortóptica trata-se problemas como o estrabismo.
* 10. Electrofisiologia
A electrofisiologia é extremamente útil em oftalmologia, apesar de já não ter o uso que tivera outrora.
A electrofisiologia reúne um conjunto de técnicas responsáveis por registar a actividade eléctrica desde a retina até ao córtex visual em resposta a um estímulo visual.
10.1. Electro-oculograma
O EOG é um exame electrofisiológico binocular que regista a actividade eléctrica do epitélio pigmentar retiniano neurosensorial, através de movimentos oculares alternantes e modificações de luminosidade, realiza-se em condições binoculares, não é necessário o uso de midriáticos nem de anestésicos visto que não é agressivo.

Fig.20 – Colocação dos eléctrodos no EOG
Para iniciar o exame é necessário colocar cinco eléctrodos no paciente, o eléctrodo preto é colocado na testa do paciente e os outros quatros estão divididos dois a dois por dois canais. O canal 1 corresponde ao olho direito e corresponde a um eléctrodo vermelho colocado no canto externo e um eléctrodo azul colocado no canto interno. Por sua vez o canal 2 corresponde ao olho esquerdo onde se coloca o eléctrodo vermelho no canto interno e o eléctrodo azul no canto externo.

Fig.21 – Registo gráfico no EOG
10.2. Electro-retinograma ERG
O ERG é outro exame electrofisiológico binocular que regista a actividade bioeléctrica global da retina, na sua função de órgão receptor da luz, através do registo dos potenciais de acção retiniana.
Compreende de duas ondas, uma positiva (onda a) e outra negativa (onda b) onde a duração é aproximadamente 1ms. A onda a estuda a camada de fotorreceptores da retina e a onda b as camadas intermédias da retina.
ERG pattern
Exame binocular que necessita de correcção e de anestesia mas que dispensa dilatação visto que é necessário visualizar os padrões que surgirão no écran. Este exame estuda especificamente as células ganglionares.
ERG flash
Exame binocular que não necessita de correcção, realiza-se com dilatação e como há contacto directo com o olho há necessidade de anestesia. Este exame estuda os fotorreceptores e camadas mais externas da retina.

Fig.22 gráfico de ERG
No olho direito coloca-se um eléctrodo no canto externo do olho e um eléctrodo corneano directamente no olho, no olho esquerdo processa-se exactamente da mesma forma, por fim um eléctrodo preto na testa.
ERG multifocal
Este exame estuda uma grande área retiniana que resulta num campo visual central podendo detectar patologias retinianas.
Realiza-se o exame de forma semelhante ao ERG pattern, apesar do padrão apresentado ser diferente, o ERG multifocal apresenta um padrão de hexágonos com as cores preto e branco que vão alternando entre si durante o decorrer do exame.
10.3. Potenciais Evocados Visuais PEV
O exame os potenciais evocados visuais é outro dos exames electrofisiológicos existentes, realiza-se em condições monoculares e regista a actividade bioeléctrica de toda a via óptica até ao córtex occipital.
Na realização deste exame são colocados três eléctrodos no paciente, um azul na testa, um preto no centro da cabeça e um vermelho 1cm a cima da protuberância.

Fig.24 colocação de eléctrodos no PEV

Fig.25 gráfico de PEV

