Por: Bruno José Braz da Glória
Curso Superior de Ortoprotesia
Escola Superior de Saúde da Universidade do Algarve (ESSUAlg)
Descrição da profissão
O Ortoprotésico é o profissional de saúde formado em Ortoprotesia responsável pela avaliação de indivíduos com deficiência funcional total ou parcial do sistema neuro-músculo-esquelético, com a finalidade de conceber, desenhar e aplicar os dispositivos necessários e mais adequados à correcção do aparelho locomotor (ortóteses), ou à sua substituição no caso de amputações (próteses).
Legislação que regula a profissão
Decreto-lei nº 261/93 de 24 de Julho
Decreto-lei nº 320/99 de 11 de Agosto
Decreto-lei nº 564/99 de 21 de Dezembro
Contextualização histórica
A história da Ortoprotesia é paralela à evolução da Medicina, cujo despoletar se deu sobretudo com as civilizações egípcia, grega e romana.
Existem achados arqueológicos, nomeadamente pinturas e gravuras da quinta dinastia egípcia (2750-2625 a.C.), que mostram pessoas utilizando ortóteses.
A referência escrita mais antiga descrevendo uma protetização está presente num manuscrito indiano chamado Rig-Veda, que data de 1800-1500 a.C., onde se relata a história da rainha Vishpla, que perdeu um membro inferior durante uma batalha, mas que retornou a ela com uma prótese de ferro.
Hipócrates (460-375 a.C.), considerado o pai da medicina, foi o primeiro a idealizar vários aparelhos ortopédicos e talas, indicadas para o tratamento de fracturas, luxações e deformidades. É também atribuída a Hipócrates a mais antiga descrição técnica de amputação.
Em 1564, Ambrose Paré (1510-1590), um grande cirurgião militar francês, publicou uma obra de dez volumes sobre o seu trabalho. Nessa obra, são apresentadas inúmeras ilustrações e descrições de próteses e ortóteses para membros superiores e inferiores,
Contudo, a grande evolução da Ortoprotesia foi fruto de três acontecimentos marcantes do século XX: a Primeira e Segunda Guerras Mundiais (1914-1938 e 1941-1945, respectivamente) e a epidemia de poliomielite da década de 1950.
Estima-se que da Primeira Guerra Mundial tenham resultado cerca de 300 mil amputados em toda a Europa, o que forçou a pesquisa e o desenvolvimento na área das próteses e reabilitação. Foi efectuado um enorme esforço para fazer regressar esses amputados ao trabalho, sobretudo à agricultura e ao comércio, uma vez que houve um decréscimo significativo da mão-de-obra masculina.
Com a Segunda Guerra Mundial o número de amputados foi ainda mais elevado, sobretudo nos norte-americanos, o que gerou uma necessidade de evolução na construção e aplicação das próteses, tal como uma melhoria dos materiais utilizados. No fim deste conflito, houve necessidade de proporcionar melhores próteses aos amputados, e em 1945 foi criado o Conselho Nacional de Pesquisa (National Research Council) nos EUA. Mais tarde, este deu origem ao Quadro de Pesquisa Protésica (Prosthetic Research Board).
O número de pessoas com sequelas resultantes da epidemia de poliomielite da década de 1950 foi bastante grande, levando ao desenvolvimento e à pesquisa de novos tipos de ortóteses, assim como à utilização de novos materiais mais leves e resistentes na sua confecção.
Actualmente, a inovação tecnológica dos últimos 50 anos disponibilizou novos materiais e novas ferramentas. Temos como exemplos o sistema CAD-CAM (Computer Aided Design – Computer Aided Manufacture), os componentes pré-fabricados nos mais diversos materiais e as próteses com microprocessadores integrados.
História nacional da formação da profissão e do seu ensino
Em 1961 o Centro de Medicina de Reabilitação do Alcoitão (CMRA) contratou e enviou quatro jovens para os Estados Unidos da América e para o Reino Unido, para que recebessem formação nas áreas de Próteses, Ortóteses, Cintas Medicinais e Calçado Ortopédico. Estes foram os primeiros Ortoprotésicos.
Quando regressaram ao CMRA, foi contratado pessoal para o sector de Ortoprotesia. A sua formação foi realizada com base na prática diária à bancada, sem no entanto contactarem com o doente. Estes eram somente Auxiliares de Ortoprotesia.
Em 1977 foi criada a Carreira de Técnicos Auxiliares de Diagnóstico e Terapêutica. Surgiu então a necessidade de integrar nesta Carreira estes profissionais. Tal aconteceu entre 1978 e 1980, pelo Departamento de Recursos Humanos da Saúde, através da análise curricular. Os indivíduos que não foram integrados na Carreira puderam recorrer à frequência de um Curso de Promoção com a duração de 9 meses cujo conteúdo consistia em matérias teóricas e práticas, mas com maior incidência nas teóricas.
Em 1982, com a criação das Escolas Técnicas dos Serviços de Saúde de Lisboa, de Coimbra e do Porto, dá-se a transição da formação essencialmente hospitalar e em serviço para uma formação escolar.
Ainda neste ano, foi criado o primeiro Curso de Ortoprotesia, na Escola Técnica dos Serviços de Saúde de Lisboa. Este curso teve a duração de seis semestres lectivos, sendo composto por um conjunto de disciplinas comuns a todos os cursos ministrados nesta Escola, por um período de formação técnica e por um período de estágio. Os candidatos entravam através da realização de provas gerais a nível nacional.
Em 1984 foi criado o segundo Curso de Ortoprotesia, também na mesma Escola, mas cuja condição de ingresso fora alterada, devido às alterações da Carreira, passando a ser o 12º ano de escolaridade.
Em 1987 foi criado o terceiro e último Curso de Ortoprotesia, desta vez na Escola Técnica dos Serviços de Saúde do Porto, baseando-se nos mesmos moldes do curso da Escola dos Serviços Técnicos de Saúde de Lisboa.
Em 2003, surgiu na Escola Superior de Tecnologias da Saúde de Lisboa (ESTeSL) o Curso Superior de Ortoprotesia, dando início a uma formação universitária na área, em igualdade de circunstâncias com os seus pares das Tecnologias da Saúde.
Em 2004, a Universidade do Algarve (UAlg), através da colaboração entre a Escola Superior de Saúde e o Instituto Superior de Engenharia, iniciou também o Curso Superior de Ortoprotesia.
Em 2008, estes dois Cursos Superiores, tal como todos os outros das Tecnologias da Saúde, foram adequados ao Processo de Bolonha, passando a ter uma duração de 4 anos lectivos, o equivalente a 240 ECTS.
Ainda em 2008, a Escola Superior de Saúde do Alcoitão (ESSA) criou a primeira Pós-Graduação em Ortoprotesia, apostando na formação contínua e superior na área da Ortoprotesia.
Breve descrição das áreas de intervenção e das principais funções
Tomada de medidas
Cabe ao Ortoprotésico a tomada de medidas e traçados necessários para a confecção das próteses e ortóteses conforme a prescrição médica.

Fig. 1 – Tomada de medidas de circunferência e de comprimento do membro residual de um amputado transfemoral (amputação acima do joelho).
Tiragem de moldes
Outra das funções do Ortoprotésico é tirar e manipular tanto o molde negativo como o positivo, durante o processo de rectificação, de acordo com a avaliação e registos efectuados, assim como os princípios biomecânicos inerentes ao tipo de prótese ou ortótese prescrita e à metodologia e técnica seleccionada.

Fig. 2 – Molde positivo de um membro residual transtibial (amputação abaixo do joelho).

Fig. 3 – Molde positivo da perna para confecção de uma ortótese.

Fig. 4 – Moldes negativos para ortóteses plantares (palmilhas).
Estudo, construção, adaptação e aplicação de Próteses
O Ortoprotésico é o único profissional habilitado a conceber próteses, que são dispositivos biomecânicos que visam substituir membros, ou parte deles, perdidos devido a causa traumática, patológica ou congénita.
Esta área de intervenção reveste-se de especial importância, pois actualmente assistimos ao grande flagelo da diabetes, que muitas vezes associada à doença vascular, é responsável por cerca de 80% das amputações de membros inferiores no mundo desenvolvido. As causas traumáticas, nomeadamente acidentes de trabalho, são as principais responsáveis pela amputação dos membros superiores.

Fig. 5 – Prótese do membro superior.

Fig. 6 - Prótese de membro inferior.
Estudo, construção, adaptação e aplicação de Ortóteses
Também cabe ao Ortoprotésico a realização de Ortóteses, que são dispositivos mecânicos, eléctricos ou pneumáticos, aplicados externamente a segmentos do corpo, com a finalidade de compensar ou substituir uma função perdida, proporcionar uma melhoria funcional de um músculo ou grupo muscular, fornecer protecção, suporte e apoio, corrigir deformidades ou impedir a sua progressão. Estas são de vários tipos, consoante a função, local de aplicação e material utilizado.

Fig. 7 - Ortótese de membro superior.

Fig. 8 - Ortótese de membro inferior.

Fig. 9 - Ortótese de correcção do crescimento encefálico.

Fig. 10 – Ortótese de tronco ou colete.

Fig. 11 – Ortótese plantar ou palmilha.

Fig. 12 – Calçado ortopédico.
Cuidados primários de Saúde
O Ortoprotésico pode actuar na área da prevenção de alterações estruturais, funcionais ou morfológicas através do aconselhamento de atitudes ou do uso de ortóteses com o intuito de educar e promover a saúde e qualidade de vida do indivíduo, seja de forma isolada ou integrado numa equipa multidisciplinar.
Ensino
O Ortoprotésico está ainda habilitado a ministrar o ensino da Ortoprotesia e de outras Tecnologias da Saúde nos seus locais de formação e a orientar estágios profissionais.
Locais de exercício da actividade / Saídas profissionais
- Cuidados Primários nos Centros de Saúde
- Hospitais com departamentos de Fisiatria, Ortopedia, Cirurgia e Ortoprotesia
- Clínicas e Centros de Reabilitação
- Ortopedias e Centros Técnicos de Ortopedia
- Farmácias que comercializem ajudas técnicas ou material ortopédico
- Consultadoria em Entidades Seguradoras e Financiadores de ajudas técnicas
- Indústria e comércio de componentes e materiais de Ortoprotesia
- Organizações Não Governamentais
- Ensino
- Investigação
Principais associações a nível nacional e internacional
- Associação Profissional dos Técnicos de Ortoprotesia (APTO)
- International Society for Prosthetics and Orthotics (ISPO)
- International Dome Association of National Prosthetic & Orthotic Trade Associations (INTERBOR)


